domingo, 1 de maio de 2011

O ofício das cordas

Por conta de uma enfermidade, depois de quatro décadas de ensino dedicados ao Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, o professor cearense José Mário de Araújo encerra suas atividades como profissional. O seu legado é lembrado por alunos e amigos, que enaltecem as qualidades do mestre, na sua área de atuação no magistério e na pesquisa do violão

Por problemas de saúde, o mestre violonista José Mário de Araújo deixa as salas de aula. Foram 40 anos lecionando e pesquisando o instrumento que é parte de sua vida: o violão
Depois de 40 anos de atividades como professor regente da cadeira de Violão Clássico, do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, José Mário de Araújo, por motivos de saúde, deixa de lecionar no conceituado espaço da cultura cearense. Vários solistas de diferentes gerações, em Fortaleza, começaram a dedilhar seus instrumentos e aperfeiçoar suas técnicas de execução através dos ensinamentos repassados pelo mestre José Mário.

Entre eles, Marcos Maia, Paulo Góis, Manoel Guerreiro, David Calandrine, Cláudio Mesquita e Marco Túlio. Dois outros profissionais do ramo que também são destaque no cenário musical, mas não estudaram com o violonista, também atestam a importância dos seus ensinamentos e pesquisas na área do instrumento, Nonato Luiz e Tarcísio Sardinha.

Além do ofício de repassar seus ensinamentos, a atual diretora do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, professora Mirian Carlos Moreira de Souza, lembra da importância das atividades de José Mário de Araújo como pesquisador e divulgador do instrumento, com as publicações de alguns volumes da série sobre a Preservação da Cultura Violonística do Estado do Ceará.

Livro de canções
A primeira edição da obra impressa, foi lançada pela então Imprensa Oficial do Ceará, IOCE, em 1986, dedicada para as valsas e choros. Nela, o estudioso resgatou para a pauta, 14 partituras de composições de sua autoria e de outros autores alencarinos, como Pedro Ventura, Miranda Golignac, Francisco Soares, Luís Nóbrega, Zivaldo Maia e Euclides Lemos, este último carioca, mas, muito ligado ao Ceará e também amigo dos outros instrumentistas incluídos no livro.

No prefácio do livro Preservação da Cultura Violonística do Ceará I, José Mário de Araújo escreveu suas considerações sobre sua missão: "Existe na Literatura Musical Violonística, uma considerável escassez de obras feitas originalmente para esse belíssimo, exuberante e mágico instrumento - o violão. Pensando nisso e sentindo essa iniquidade, foi que decidi fazer esta pesquisa de preservação para evitar que músicas como estas, verdadeiras obras primas, desapareçam no tempo".

Dificuldades
José Mário acrescentou no prefácio seus argumentos e a importância da publicização da grafia escrita e dedilhados das obras, dizendo que "pelo total desconhecimento da sua intelectualidade musical e por não saber sequer escrever partituras, esses compositores iriam permanecer no anonimato e igual destino teriam suas composições, não fossem a tenacidade, a garra, o desprendimento do lazer, a renúncia da família e a dedicação integral dessa jornada a que me propus, para salvar esse importante acervo".

Quando se refere aos obstáculos para colher o material de sua pesquisa, o professor também relata sua paciência para obter o produto final: "Vale salientar o esforço e as dificuldades que o pesquisador enfrenta num trabalho desse gênero, onde tem de usar toda sua habilidade, destreza e conhecimento para conseguir realizar a contento aquilo a que se propôs. A maioria desses compositores desconhece qualquer teoria musical, o que faz que o trabalho seja árduo e moroso, obrigando o pesquisador, pela necessidade de uma convivência com o compositor, dedicar muitas horas ao seu lado, para sentir bem a métrica, e a maneira de apreciar sua música e só daí passar a escrevê-la".

Ao terminar sua catalogação, seleção e publicação de Preservação da Cultura Violonística do Ceará I, José Mário dá o parecer sobre o livro. "Depois dessa longa e trabalhosa pesquisa, torno realidade este anseio de fazer justiça ao violão, instrumento que, apesar de aparentemente não demonstrar a sua extraordinária capacidade timbrística, melódica e harmônica, é capaz de produzir através de sua complexidade, os mais surpreendentes efeitos na execução de uma partitura. Também a esses inspirados compositores, graças a atenção, compreensão e apoio de muitos amigos, com a publicação da primeira etapa desta pesquisa", escreveu.

NELSON AUGUSTO

REPÓRTER

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Professor, violonista e pesquisador
Conhecemos o Professor José Mário desde que começamos a estudar no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. De imediato, chamou-nos a atenção a seriedade com que encarava o magistério. Chegava sempre antes das aulas iniciarem e detinha-se longo tempo após seus términos.

Sempre havia algum detalhe a ser aprofundado, um problema estilístico a ser esclarecido. Como intérprete, conhecia a vasta literatura violonística e valorizava sobremaneira os compositores nacionais e, em especial, os cearenses.

Em todos os seus recitais, lá estavam os brasileiros ocupando lugar de igual importância aos compositores de outras terras.

A dificuldade de encontrar peças de outros autores do Ceará incentivou-o a longa e minuciosa pesquisa sobre os compositores de nossa terra. Não fosse sua determinação valioso acervo violonístico estaria irremediavelmente perdido.

José Mário como pessoa é de uma convivência tão harmoniosa quanto sua vida. Fala mansa, gestos simples, sorriso tímido, vestir elegante, atributos que sempre elevaram seu conceito e bem querer entre seus alunos e o respeito e admiração de seus colegas.

Com certeza, os que passaram pela sua sala de aula são privilegiados e os que não viveram esta experiência feliz ouvirão sempre falar de um mestre que, durante mais de 40 anos, engrandeceu o universo artístico cultural de nossa terra.

Mirian Carlos Moreira de Souza

Diretora do CMAN

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