terça-feira, 11 de outubro de 2011

Memória repaginada

Com a chegada de três novos títulos, a Coleção Nossa Cultura, da Secretaria da Cultura do Ceará, reforça a tradição da literatura do Estado

Jáder de Carvalho-Ilustração Audifax Rios

Revelar a riqueza do Ceará aos próprios cearenses. Em última instância, é esse o objetivo da Coleção Nossa Cultura, ação da Secretaria da Cultura do Ceará inserida na construção de uma política voltada ao livro e à leitura. Embora situado no campo da literatura, o programa revela contornos mais abrangentes, ao fazer emergir e manter em circulação uma parte largamente desconhecida da produção intelectual do Estado.

Neste ano, a Coleção ganhou novos títulos, que agora se somam aos anteriores nos acervos das bibliotecas estaduais: "Américo Facó: obra perdida", com obras do autor mencionado; "O Canto Novo da Raça", dos escritores Jáder de Carvalho, Sidney Netto, Mozart Firmeza e Franklin Nascimento, e "Romanceiro de Bárbara", de Caetano Ximenes de Aragão.

Mozart Firmeza-Ilustração Audifax Rios

Os três livros fazem parte da série "Luz do Ceará", uma das quatro da Coleção Nossa Cultura (as outras são "Memória", "Panorama Nacional" e "Biblioteca Bolivariana").

"Sinfonia Negra", de 1946 (descoberta preciosa, por ser composto, em boa parte, de narrativas), e "Poesia Perdida", de 1951, são os dois trabalhos de Facó presentes em "Obra perdida". O reconhecimento chega em hora oportuna, frente ao aniversário de 126 anos de nascimento que o escritor comemoraria em 2011.

"Obra perdida" foi elaborada a partir da investigação das edições príncipes do autor na Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel, com o acréscimo de novas ilustrações.

Já "Romanceiro de Bárbara" foi originalmente escrito entre julho de 1975 a agosto de 1978, com o intuito de registrar a trajetória histórica de Bárbara de Alencar, nascida no Exu, Pernambuco, em 1760, e morta no Piauí, em 1832.

Franklin Nascimento-Ilustração Audifax Rios

Trata-se de um conjunto de 77 poemas com acentuada influência da poesia popular do Nordeste. Esta segunda edição, que chega mais de 30 anos após a primeira, traz a apresentação do poeta Francisco Carvalho, texto originalmente publicado no caderno "Exercícios de Literatura", das Edições UFC (1990), e um estudo biobibliográfico do Prof. Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Por fim, "O Canto Novo da Raça", cuja primeira edição data de 1927, reúne poemas dos quatro autores considerados pioneiros do Modernismo no Ceará. O texto de apresentação ficou por conta de Sânzio de Azevedo, colaborador fundamental também em outros momentos do projeto.

Disseminar
Embora lançados neste ano, as três reedições foram elaboradas ao longo do ano de 2010, juntamente com outro projeto de fôlego da coleção, uma série de 10 volumes com reedições de obras de Juvenal Galeno.

"Juvenal Galeno: obra completa" faz parte da série "Memória", e traz inclusive trabalhos que nunca haviam sido publicados - a exemplo de "Quem com ferro fere, com ferro será ferido", primeiro texto teatral escrito e encenado no Ceará, datado de 1859".

"Esse texto tem importância fundamental tanto para a literatura quanto para as artes cênicas cearenses. O manuscrito estava com Ricardo Guilherme, descobrimos isso ao longo das pesquisas. Até a Casa de Juvenal Galeno dava-o como perdido", comemora Raymundo Netto, coordenador editorial da Secult e responsável pela Coleção.

"A elaboração dessa série foi repleta de descobertas como essa, encontramos coisas raríssimas como cartas de Gonçalves Dias a Galeno, entre outras. Tivemos o maior cuidado, porque embora ele não seja nosso principal poeta, é o mais significativo. Foi pioneiro em todos os aspectos que se possa imaginar no campo da escrita", complementa o coordenador.

Sidney Netto-Ilustração Audifax Rios

Entre os dez volumes, Netto destaca alguns como "Prelúdios Poéticos", primeiro livro escrito por Juvenal. "É um marco do romantismo cearense. Galeno lançou-o no Rio de Janeiro e chegou aqui com apenas dois exemplares. Um estava com a família, outro na biblioteca pública", recorda.

"Agora as obras estão ao alcance de todos. Costumo dizer que, nesse projeto, o livro em si nem é o mais importante, mas sim o resgate da cultura e da memória, de democratizar o acesso a essas obras e estimular pesquisas. Olhamos nossos poetas como se fossem menores, mas, na verdade, não os conhecemos. Vários grandes livros da literatura cearense nunca chegaram a ter uma segunda edição", pondera Netto.

Ao longo desse trabalho, o coordenador destaca colaborações importantes como a de Sânzio de Azevedo. "Ele foi um consultor constante", reconhece. O elogio vem de volta. "Juvenal Galeno não era mais lido porque ninguém encontrava mais seus livros, nem em sebos. Agora, todos poderão conhecê-lo, graças ao trabalho de Raymundo", observa Sânzio.

As loas estendem-se inclusive por parte de outros pesquisadores. "Nosso mercado editorial ainda é tímido, e muitas vezes não dá importância ao que foi feito antes. Então iniciativas como essa são oportunas", elogia o professor Gilmar de Carvalho.

"É um material que precisa estar nas bibliotecas, precisa circular e sair dessa rubrica de ´obras raras´. Embora muita coisa já tenha sido reeditada, gostaria de ver outras iniciativas nesse sentido", torce Gilmar.

Entre possíveis sugestões para futuros relançamentos, o professor destaca dois livros. "´A Divorciada´, de Francisca Clotilde, e ´Rainha do Ignoto´, de Emília Freitas, seriam títulos interessantes nesse momento em que se fala tanto da questão de gênero, por serem de duas escritoras. ´Rainha´, por exemplo, chegou a ser republicado, mas há cerca de 30 anos. As novas gerações não têm acesso", ressalta.

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

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