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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Escritor cearense Moreira Campos


Documentário sobre o escritor cearense Moreira Campos realizado pela TV Assembléia do Ceará. A lembrança é devido o dia 6 de janeiro marcar o nascimento de Moreira Campos (1914), em Senador Pompeu. Integrante do Grupo Clã, Moreira lançou “O Puxador de Terço”, “Dizem que os Cães Vêem Coisas” e outros livros de contos.

Fonte:  Blog Ceará Agora e TV Assembléia do Ceará

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As letras de Floriano

Nosso colaborador dominical que envia entrevistas semanalmente, hoje, torna-se alvo de uma conversação

image Foto: Jornal da Poesia

Floriano Martins é um ativista cultural que caiu como luva para o DC Ilustrado. Desde agosto deste ano (2011) tem colaborado com extensas entrevistas em nosso caderno domingueiro, jogando luz sobre as artes e criadores brasileiros, levando aos leitores mais conhecimentos e esclarecimentos em torno dos nossos fazeres culturais. Floriano nasceu no Ceará em 1957 e é o criador e editor da Agulha Revista de Cultura: www.revista.agulha.nom.br, publicação que existe há 12 anos. É poeta, editor, ensaísta e tradutor. Sua relação com Cuiabá teve início na primeira edição da Literamérica, em 2005, quando ele foi consultor do evento. Em 2006, ele também participou, contribuindo para o sucesso da saudosa Feira Internacional de Livros que Cuiabá sediou. De lá pra cá, têm sido constantes nossas trocas de informações, e essa relação se cristalizou com suas valiosas colaborações para o DC Ilustrado. Ouvir Floriano é sempre uma oportunidade de ampliar os horizontes, especialmente, no que se refere à literatura latino-americana.

DC: Lembro-me que na Literamérica de 2005 muito se comentou a expressão “o Brasil está de costas para os outros países da América do Sul”. Esse fato, essa realidade, em sua opinião, ainda é tão flagrante, ou alguma coisa está se modificando? Por quê?

FM: É uma questão de (falta de) princípios e não de quantidade. Por mais que alguns isoladamente se esforcem por reduzir essa barreira entre as duas fatias, assim constituídas, dessa parte do continente (que, a rigor, se amplia por todo ele), não há declarada intenção, pública ou privada, institucional ou intelectual, de sistematizar um plano de intercâmbio cultural. Nem mesmo na área comercial – claro, aqui me referindo ao comércio das artes. Do ponto de vista institucional, trata-se de uma falha estratégica, pois o governo não tem a menor idéia do quanto que o delineamento de um programa de aproximação dessas culturas poderia gerar de receita política em seu favor. Do ponto de vista do intelectual brasileiro, até onde existe essa entidade, a sua petulância somente encontra parâmetro em sua covardia; no primeiro caso, por sentir-se superior em tudo; no segundo, por se ausentar de cena sempre que é necessário ouvir sua voz. Não se muda um cenário desses da noite para o dia.

DC: Com esse distanciamento, apesar das fronteiras geográficas, fica uma impressão de que a nós, brasileiros, não chegam alguns dos melhores escritores de países de língua espanhola. Eu diria que conhecer Borges, García Márquez, Cortazar, Neruda, Puig, Piglia, Octavio Paz e mais alguns famosos. Não me parece que seja suficiente para se adentrar na plenitude que é o universo literário espanhol. Meu raciocínio está correto?

FM: A lacuna, que é imensa, existe pela ausência de programa editorial. Durante seis anos, por exemplo, eu fui coordenador editorial da coleção Ponte Velha, da Escrituras Editora, em São Paulo, e através dessa coleção foi possível trazer ao leitor brasileiro mais de 40 autores portugueses (e uns poucos também da África portuguesa) até então não publicados no Brasil. Acontece que não há uma coleção assim no âmbito da literatura de língua espanhola. Evidente que se pensarmos na literatura, em seu amplo espectro de gêneros, tendências, movimentos, tudo isto multiplicado pelos 20 países de língua espanhola, seria impossível esgotar o tema graças aos poucos autores de que dispomos no Brasil.

DC: Vamos voltar ao passado. Com que idade, mais ou menos, Floriano se interessou pela literatura, e quando foi que a língua espanhola entrou em sua vida para ficar? Poderia também falar sobre motivos suspeitos que o levaram a isso?

FM: O tema requer boa memória. Eu sou filho da televisão, o que quer dizer que desde menino eu ficava fascinado com os desenhos do Gato Félix. Minha mãe tinha aquela coleção da revista Grande Hotel, as fotonovelas, adaptações de clássicos da literatura mundial. Meu pai tinha uma biblioteca que era uma verdadeira salada de gêneros. Em casa também se ouvia muita música. Essa multiplicidade de fontes sempre esteve presente em minha vida. Já a língua espanhola entrou como uma espécie de acaso objetivo. Havia lido algo de Borges e Neruda em português, mas o fascínio veio quando um amigo me presenteou com a poesia completa do César Vallejo. A curiosidade é que o fascínio não estava propriamente na poesia do Vallejo, mas sim nos nomes de outros poetas citados no estudo introdutório, que eu desconhecia por completo. Desvendar esse mundo troava como um desafio. O próprio autor do estudo, Américo Ferrari, é um dos grandes poetas peruanos que posteriormente conheci, entrevistei e publiquei em minha revista.

DC: E a Agulha Revista de Cultura, como foi que ela surgiu e desde quando ela vem costurando sua trajetória de vida?

FM: Desde o final de 1999. Logo no ano seguinte convidei o Claudio Willer para juntar-se ao projeto e passamos a ser ancorados no Jornal de Poesia, graças à generosidade do Soares Feitosa. A revista tem ampla e comprovada aceitação em inúmeros países. Em 2007 recebemos o prêmio da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte, pois uma das características da revista é o espaço que criamos de difusão das artes plásticas. Em 2009 encerramos a primeira fase, com a publicação de 70 números. A partir daí o Willer se desligou do projeto e por dois anos eu me dediquei sozinho ao que chamamos de Agulha Hispânica, dedicada exclusivamente ao mundo da cultura e das artes em língua espanhola. A partir de janeiro de 2012 começamos uma nova fase, desta vez com um outro parceiro, Márcio Simões. A revista está maior, com textos publicados em português, inglês, espanhol e francês, e reúne em seu portal – www.revista.agulha.nom.br – as duas coleções anteriores, além do acesso aos demais projetos editoriais, Banda Hispânica e Banda Lusófona. Há muita novidade, assim que o melhor é convidar o leitor a visitar o portal.

DC: Você também participa de alguns projetos envolvendo outras marcas literárias, como a editora mexicana La Cabra Ediciones e as Edições Nephelibata, de Santa Catarina. Fale sobre isso.

FM: São editoras de livros impressos com características distintas entre si. A mexicana é mais ampla e comercial. Através dela estamos publicando, em quatro volumes, uma seleção das melhores matérias dos primeiros 10 anos de Agulha Revista de Cultura. Agora no começo de 2012 sai o primeiro volume, dedicado às entrevistas. Também estamos desenvolvendo a criação de uma coleção de livros de autores brasileiros para divulgação no México. A brasileira Nephelibata caracteriza-se pelas edições artesanais de tiragem reduzida. Ali eu criei e coordeno uma coleção intitulada O Começo da Busca, mantendo o mesmo princípio da editora, de buscar autores ou livros não (mais) contemplados pela visão editorial de grande mercado. É intensa e valiosa a cumplicidade com as duas editoras, além da amizade incondicional com seus diretores, respectivamente María Luisa Passarge e Camilo Prado. Na Agulha Revista de Cultura que acabamos de publicar há entrevistas com ambos, onde falam mais detidamente de seus projetos editoriais.

DC: Em algumas entrevistas que você fez e que já publicamos aqui, há pistas de uma forte admiração pelo surrealismo. Ou será que estou enganado? Pelo sim e pelo não, peço que se estenda em torno disso.

FM: O Surrealismo é a presença mais marcante dentro do universo das vanguardas do princípio do século XX. Sua defesa intransigente de uma relação íntima entre vida e obra o tornou tabu em um país culturalmente dominado por senhores feudais como Tristão de Athayde e Mário de Andrade, União dos Moços Católicos, TFP e congêneres. Embora pudéssemos encontrar identificações com o surrealismo na obra de escritores e artistas brasileiros, tudo sempre foi muito velado. Quando descubro a atuação do surrealismo na América Hispânica é que resolvo me dedicar à pesquisa, tradução e publicação de livros. Em 2001 publiquei uma primeira antologia do surrealismo em nosso continente. Dois outros volumes saíram posteriormente, sobre o mesmo tema, porém no exterior: Costa Rica e Venezuela. Agora finalmente estou concluindo as quase 800 páginas de um livro que mescla estudos críticos, entrevistas, documentos raros e antologia poética, do surrealismo em toda a extensão do continente americano. Mas claro que a paixão pelo surrealismo transcende a pesquisa histórica, assim que há também declarada afinidade no âmbito estético.

DC: Aqui em Cuiabá, neste ano, palestraram escritores como Cristóvão Tezza, Luiz Ruffato, Marçal Aquino e Nicolas Behr. São autores conhecidos pelo Brasil afora, e até alguma projeção no exterior. Com exceção de Marçal, os outros, de uma forma geral, diagnosticam um crescente interesse do brasileiro para com a literatura nos últimos anos. Floriano Martins tem uma opinião definida sobre isso?

FM: Há sempre o perigo de dar um tiro no pé um autor apontar desinteresse do leitor pela literatura. Certamente hoje se publica muito mais do que há uma ou duas décadas. Há mais facilidade de exposição, o que nem sempre significa atrair mais leitores. Pode inclusive acontecer o contrário: afastar o leitor por excesso de oferta, desnorteá-lo. Além disto, as listas de mais vendidos atestam uma preocupação com a natureza do que se está lendo. Tampouco podemos nos esquecer que a estatística é um tipo de ciência ambígua. Melhor confiar desconfiando. Alguém já disse que a única coisa permanente no Brasil são os modismos, sua infinita capacidade de renovação. Mantenho a minha postura de pessimista produtivo. Jamais cometo o erro de tirar o domingo para descansar.

DC: Floriano, fale um pouco sobre sua produção. Além das páginas web mencionadas, o leitor que quiser conhecer suas obras publicadas (quantas e quais são?) pode encontrá-las de que forma?

FM: Somando livros de poemas, prosa poética, narrativa, ensaio e entrevistas, aos volumes organizados e traduzidos por mim, creio que chegamos à casa de 70 títulos, espalhados, sobretudo ao longo dos últimos 15 anos, por oito países, através de edições comerciais e selos caseiros. Entre os livros publicados no Brasil, mais recentes, sugiro o leitor buscar A inocência de pensar (ensaios, Escrituras, 2009) e Autobiografia de um truque (prosa poética, Nephelibata, 2010). Na Espanha foi publicado em 2009 um volume bilíngüe com a minha poesia, intitulado Fogo nas cartas. Em fevereiro de 2012 será lançada no México uma edição trilíngue (português, inglês, espanhol, por La Cabra Ediciones) de Overnight medley, livro que escrevi com o poeta mexicano Manuel Iris. Também me atrai muito o trabalho como capista e letrista de canção. E naturalmente essa inquietude é fruto daquela diversidade de leituras da infância.

Lorenzo Falcão
Da Editoria

Fonte: Diário de Cuibá

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Prêmio da Unifor encerra inscrições dia 23

Com inscrições abertas até sexta-feira, o Prêmio de Literatura da Unifor contempla trabalhos do gênero poesia

O concurso literário da Unifor premiará trabalhos de poetas em duas categorias: poemas avulsos e livros inéditos

Mais três dias. Esse é o prazo restante aos interessados em participar do IV Prêmio de Literatura Unifor, cujas inscrições seguem até o próximo dia 23. Voltado a trabalhos inéditos, neste ano o concurso contempla o gênero da poesia. O Prêmio faz parte de uma série de ações da Universidade de Fortaleza (Unifor) voltada ao fomento da cultura no Ceará.

A seleção divide-se em duas categorias - uma para poemas avulsos e outra para obra (com pelo menos 100 páginas de poemas). "Nem todo mundo tem uma produção completa, mas possui duas, cinco poesias. É uma maneira de contemplar esses autores iniciantes", explica a professora Adriana Helena, chefe da divisão de Arte e Cultura da Unifor, que realiza o prêmio por meio da Vice-Reitoria de Extensão da instituição.

Nos dois casos, os textos precisam ser inéditos e em língua portuguesa. O descumprimento desses critérios implica em eliminação da seleção. O prêmio existe desde 2006, idealizado pelo escritor e professor da Universidade Batista de Lima. Na primeira edição, o gênero escolhido também foi a poesia, sucedido pelo conto, em 2007, e pela crônica, em 2009.

Na categoria de poemas avulsos, cada participante poderá inscrever, no máximo, três trabalhos, com até cinco páginas cada um. Já na categoria de obra encaixam-se volumes com, no mínimo, 100 páginas. Todo o material deve ser entregue sob pseudônimo, com os dados da identidade do autor dentro de envelopes lacrados.

O autor do livro classificado em primeiro lugar receberá como prêmio uma viagem a Washington (EUA), para visitar a Biblioteca Nacional do Congresso Americano. O vencedor ganha ainda a publicação da obra, com impressão de 400 exemplares. Já na categoria de textos avulsos, serão premiados 20 autores. O primeiro lugar recebe uma viagem ao Rio de Janeiro (RJ), para visitar a Biblioteca Nacional; os classificados do segundo ao 20º lugar terão seus trabalhos publicados em uma coletânea. O material será avaliado por uma comissão de profissionais da área. As inscrições devem ser feitas na Vice-Reitoria de Extensão, que fica no campus - prédio da Reitoria, 1º andar (Av. Washington Soares, 1321, Bairro Edson Queiroz - Fortaleza - CE, CEP: 60811 - 905). O edital está disponível em http://www.unifor.br. O resultado será divulgado em 21 de março, quando acontece a solenidade de anúncio dos ganhadores e as respectivas premiações.

"Há algum tempo a Unifor vem desenvolvendo ações de incentivo à cultura do Estado. No caso do Prêmio de Literatura, é uma boa oportunidade tanto para escritores iniciantes quanto para aqueles já reconhecidos", ressalta Adriana Helena.

Mais informações
4° Prêmio de Literatura da Unifor Inscrições até 23 de dezembro de 2011. Resultado e entrega dos prêmios: 21 de março de 2012. Contato: (85) 3477.3311 e http://www.unifor.com.br

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Por um país de leitores

À frente da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL) do Ministério da Cultura, o cearense Fabiano dos Santos fala sobre os projetos para 2012 e o desafio de transformar o Brasil em um País de leitores

Fabiano dos Santos: ações têm que ir além do livro
FABIANE DE PAULA

O desafio é árduo: pensar políticas públicas de fomento ao livro e à leitura em um país de poucos leitores (apesar de seus grandes escritores), livros caros, poucas e pobres bibliotecas e intensamente marcado pela desigualdade social, quadro agravado ainda pela má qualidade do ensino público. Eis a tarefa que o cearense Fabiano dos Santos assumiu em 2007 no Ministério da Cultura, à frente da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL).

Ele esteve em Fortaleza na última quarta-feira, dia 7, acompanhado da ministra da Cultura, Ana de Hollanda e do diretor da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, para lançar o resultado do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel. O prêmio é uma das ações da DLLL. Para 2012, Fabiano dos Santos anuncia uma série de projetos, o que inclui editais voltados para a criação, produção, difusão e pesquisa, ampliação do projeto Agentes de Leitura e comenta os impactos que o Vale Cultura promete no mercado editorial brasileiro.

"Política pública de livro se faz com política pública que tem que ir para além do livro. Inclui fomento, aquisição de acervo, formação de leitores, ações voltadas para a literatura, para fomentar processos de criação e difusão", inicia a conversa, dimensionando a amplitude do trabalho da DLLL.

Fomento
A avalanche de títulos estrangeiros e outros de qualidade duvidosa, mas com forte apelo comercial, conta Fabiano, é outra preocupação. Ele avalia que a ausência de bons títulos nacionais nas listas de mais vendidos se deve, em parte, a falta de aposta dos editores em nossos escritores e, por consequência, no pouco investimento na divulgação das obras, pouco destaque nas livrarias, etc.

"Em termos de políticas públicas, é preciso criar condições para que literatura brasileira seja exercitada. Isso é uma premissa. Da mesma forma, o mercado editorial tem que criar espaços para que essa literatura seja publicada", argumenta.

Pelo menos quatro editais para o setor serão lançados em 2012. A segunda edição do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, anunciado por Ana de Hollanda já no encontro da última quarta-feira, voltada para criação, produção, difusão e pesquisa.

O edital Leitura Para Todos irá financiar projetos sociais de incentivo à leitura. Voltado para entidades da sociedade civil, irá contemplar iniciativas de formação e ação de mediadores de leitura, também projetos voltados para leitura em espaços não convencionais e de vulnerabilidade social - hospitais presídios, estações de trem, fábricas - e uma terceira categoria para criação e manutenção de bibliotecas comunitárias.

Fabiano destaca ainda um edital específico de fomento a periódicos literários. "O Brasil tem um número expressivo desses periódicos. A ideia é qualificar a produção, distribuição e comercialização disso, incluindo publicações impressas e digitais", detalha o escritor e gestor cultural.

Outra iniciativa importante será um edital de literatura para bolsas de criação, formação circulação, intercâmbio e residência literária. "A ideia é que (o edital) seja lançado em fevereiro, no máximo em março de 2012", antecipa Fabiano.

Feiras
Para o Ceará, Fabiano anuncia que já está firmado entre o Ministério da Cultura e a Secretaria da Cultura do Estado uma parceria para a realização de uma série de oito feiras de livro em cidade do interior, distribuídas entre as macrorregiões. "Elas fazem parte de um projeto para potencializar feiras existente, mas também apoiar novas. No Ceará, o investimento será de, aproximadamente, R$1 milhão por parte do MinC/FBN (Fundação Biblioteca Nacional) e R$1 milhão, em contrapartida do Governo do Estado do Ceará", explica.

A ação deve seguir um modelo já experimentado em 2010 no Estado, de promover feiras no interior como uma espécie de preparação para a Bienal Internacional do Livro. Na época, o projeto foi suspenso após a realização de sua segunda edição do evento por falta de verba.

Outra ação prevista para 2012, anunciada por Fabiano, é a das Caravanas de Escritores. O projeto financiará a participação de grupos de escritores em eventos dedicados a literatura, bancando o transporte dos autores e o cachê para realização de palestras. "Vamos criar um banco para que escritores se inscrevam e escolas, feiras, bibliotecas, possam solicitá-los", explica.

Mercado
Duas ações importantes de fomento à cadeia produtiva do livro, segundo Fabiano, devem ser postas em prática também em 2012. Primeiro, o Programa do Livro Popular, anunciado pela presidente Dilma Rousseff, em setembro passado, durante a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro 2011. Gerido pela Fundação Biblioteca Nacional, o programa deve fomentar a produção e comercialização de livros com o preço máximo de R$ 10.

Autores e editores poderão inscrever seus títulos, via edital, que também selecionará, em um segundo momento, pontos de venda interessados em disponibilizar os livros mais baratos.

"Essa é uma das ações mais importantes para que mercado possa se preparar para a implantação do Vale Cultura", destaca. Ele espera que o Vale Cultura seja aprovado na Câmara dos Deputados ainda no primeiro semestre de 2012.

O projeto prevê vales mensais no valor de R$ 50 a serem disponibilizados para os trabalhadores, à exemplo do vale-transporte e alimentação.

"Hoje você consegue comprar um CD de qualidade por R$9,90. Você vai em um cinema, em horários especiais, que a sessão não passa de R$10. Consegue ir a espetáculos de dança, teatro. Mas se o cara vai na livraria e vê livro, R$ 40, R$ 50... O mercado editorial brasileiro precisa se preparar para o Vale Cultura", argumenta.

Ele encerra citando uma frase de Monteiro Lobato que, ampliada, resume a proposta das ações da DLLL: "Um País se faz com homens, mulheres, livros, leitura, literatura e bibliotecas. Um pais se faz com leitura".

Engodo burocrático
Convidado ainda na gestão de Juca Ferreira para o MinC, Henilton Menezes fala do desafio de destravar burocraticamente uma pasta chave para todas as outras: a Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic)

Henilton Menezes: Quando assumi a secretaria, o Juca Ferreira brincava que ela tinha 90% dos problemas do Ministério

Um dos pontos mais complicados quando se trata de políticas públicas para a cultura, independente da instância ou do gestor, sem sombra de dúvidas, diz respeito ao patrocínio de ações culturais, desenvolvidas por artistas e agentes e entidades, selecionadas ou não por edital. Sempre há alguém insatisfeito.

Cria do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), onde era gerente de gestão da cultura, Henilton Parente de Menezes foi o mago convidado no final de 2009, pelo então ministro Juca Ferreira, para desatar este nó e colocar o Ministério da Cultura nos eixos.

Mantido com toda sua equipe intacta na gestão de Ana de Hollanda, Henilton remonta os desafios encontrados quando de sua chegada à pasta e adianta mudanças importantes que estão por vir em 2012.

"Eu assumi a secretaria no último ano da gestão do Juca. Naquela época, ele brincava que a Sefic tinha 90% dos problemas do ministério. Ela é uma secretaria da qual todas as outras dependem", conta.

Entre os principais problemas, lembra, estavam a péssima relação entre proponentes de projetos culturais e o Ministério, a demora no andamento dos processos, prestação de contas ruim, insatisfação dos funcionários da casa e falta de transparência na seleção dos projetos. "Já haviam passado três secretários e não resolviam o problema do Sefic. Eu encarei isso como desafio", diz.

Burocracia
Um dos grandes desafios, conta Henilton, aprimorar a estrutura burocrática da casa, eliminando procedimentos desnecessário e dando agilidade aos processos. "Nós éramos regulados por sete portarias. Quando parei para analisar uma a uma, percebi que em alguns casos uma acabava desdizendo o que a outra dizia. Encontrei um monte de procedimentos em que eu perguntava ´porque se faz isso?´. ´Porque é exigido por lei´, respondiam. Mas não estava escrito em canto nenhum. Isso fazia com que o sistema não andasse", conta.

Na época foi feita ainda uma análise do fluxo seguido pelos processos protocolados na casa para estudar a melhor maneira de condução entre a protoco-lação pelos artistas e o parecer final. "O tempo médio de uma aprovação de um processo na Sefic era de 127 dias. Encurtamos para 37 (em média)", ilustra. Em 2011, a pasta conta com um orçamento aprovado para captação de recursos via renúncia fiscal de R$ 1.354.423. Deste, até o momento, foram captados pouco mais da metade, valor que, segundo a assessoria da Sefic, deve ter um salto significativo neste período de fim de ano, quando as empresas costumam autorizar a liberação de recursos para os projetos.

Além da melhora na eficiência do mecanismo burocrático, Henilton cita mudanças fundamentais como a implantação de um grupo de gestão compartilhada dos recursos do Fundo Nacional de Cultura, como uma forma de dar mais credibilidade ao mecanismo de seleção das propostas e o investimento na melhora da relação entre os técnicos da secretaria e os proponentes de projetos culturais. "Os técnicos eram proibido de falar com os proponentes. Eu dizia: ´Pessoal, a Sefic não existe, ou não existiria, se não houvessem proponentes. Ele é o meu principal cliente, como trato mal esse cara?´", lembra.

Metas
A Sefic deve finalizar, em 2012, um sistema de processos computadorizados. De acordo com Henilton, o novo recurso deve diminuir ainda mais o tempo de fluxo dos projetos, além de oferecer maiores facilidades aos proponentes. Outra meta, segundo o secretário, é diminuir o passivo de prestação de contas da casa. "Esse era um dos principais problemas", diz.

Estão programadas ainda duas grandes discussões que afetam diretamente o funcionamento da Sefic: a implantação da nova Lei Rouanet, que regulamenta o sistema de financiamento de projetos via isenção fiscal, caso essa seja aprovada. "(A transição entre o modelo novo e antigo) é um trabalho bastante complexo. Não posso simplesmente virar a página. Uma lei sai, a outra entra, mas os projetos aprovados na lei antiga têm que ser concluídos. Vou ter, mais ou menos, três anos de convivência entre os dois mecanismos", explica.

A outra novidade é a implantação do Vale Cultura "que também é um projeto de bastante fôlego", diz. Henilton estima que o orçamento anual Vale deve chegar a sete bilhões. "É como se tivesse implantando quatro Leis Rouanet", compara.

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Amor, eterno amor

Em De Clóvis para Amélia, o escritor José Luís Lira publica cartas inéditas de Clóvis Bevilaqua para sua esposa. O livro é lançado hoje, 9, na Academia Cearense de Letras

(Reprodução)


A sofreguidão de um casal de noivos que se enamora distante, ávido pelo próximo encontro, escreve sobre as pequenices do amor, sobre as perguntas não respondidas, os carinhos, o tentar se fazer presente no dia a dia, mesmo estando tão longe. Era o século XIX, e Clóvis escrevia do Recife para amada Amélia em São Luís. Os escritos já seriam de uma beleza ímpar, dessas que só os apaixonados podem verter em palavras, se não fosse ainda mais um detalhe que os enriquece: Amélia de Freitas veio a ser a esposa de Clóvis, que é o Bevilaqua, um dos juristas mais importantes do País, autor do Código Civil de 1916.

Reunidas em De Clóvis para Amélia, com lançamento hoje, 9, na Academia Cearense de Letras, a partir das 18h30min, as cartas foram organizadas pelo escritor e advogado José Luís Lira.

Os noivos se conheceram nas praias do Recife de forma inusitada: Clóvis salvou Amélia de um afogamento. Se foi paixão a primeira vista, não se sabe, mas o amor, que teve seus pormenores eternizados nas correspondências, durou para sempre. As cartas foram escritas entre maio de 1882 e agosto de 1891, mas em sua maioria, os escritos são de um período que compreende poucos meses antes de o casal unir-se em matrimônio, em 5 de maio de 1883.

As cartas estavam aos cuidados de Cecília Bevilaqua, neta do casal, e foi José Luís Lira saber de sua existência para já imaginá-las em livro. “Quando encontrei as cartas, me surpreendi pela beleza e pelo conteúdo. Deparei-me com um exímio desenhista, com poesias em forma de cartas”, relembra e continua, explicando como convenceu as herdeiras a publicar as cartas: “O conhecimento do público deste material ajudaria mais ainda a manter viva a memória de Clóvis e retratar seu amor por Amélia, conhecido por poucos”.

Um problema que o escritor encontrou foi o fato de só haver cartas escritas por Clóvis, e as de Amélia, que também era escritora e postulou sem êxito uma vaga na Academia Brasileira de Letras, terem se perdido. “Penso que ela eliminou as suas próprias cartas, recomendação que ele fez a ela também e, para sorte nossa, ela não atendeu”, acredita José Lira. Em certos trechos, Clóvis faz claras menções e até repete partes das cartas de Amélia. Ao contrário do que se podia pensar, a falta das cartas de Amélia, longe de ser um demérito a obra, faz com que o leitor tenha sua imaginação aguçada.

Além das cartas, o livro traz ainda breves biografias dos dois, matérias de jornais quando da morte de Clóvis em 1944, uma carta de filha Vellêda de Freitas Bevilaqua dias após o falecimento do pai, fotografias da família e desenhos feitos por Clóvis.

Em fac-símiles, as cartas são impressas ao lado de suas transcrições, cujo português foi atualizado e trechos em francês, inglês e latim traduzidos em notas de rodapé. Por vezes, Clóvis declara serem as cartas sua única alegria. “Eu não tenho outro prazer senão escrever-lhe e ler cartas suas”, diz. Em outro, declara seu amor: “E eu amo esse estado de meu espírito me faz restringir meu mundo quase exclusivamente a você”.

Clóvis fala da vida em Recife, da casa bagunçada que dividia com o amigo, e, surpreendentemente, do desgosto com o curso na faculdade que estava prestes terminar. “Embora o meu pouco apego aos livros de direito, digo mal, embora o meu nenhum gosto e a minha absoluta inaplicação em relação ao estudo das matérias em que, em poucos dias a Faculdade me conferirá um diploma de habilitação, embora isso, digo, estimei consideravelmente a reabertura das aulas”, escreve após uma greve.

A última carta (sem data, mas que José Lira, analisando a letra mais arredondada de Clóvis, acredita que seja após o casamento) fala de um amor eterno. Dirigida a “doce Amélia”, que morreu dois anos após sua morte, Clóvis escreve: “Feliz serei se acreditares na verdade do que deixo escrito e que sempre, viva ou morta, me possuirás a alma de tal forma que eu jamais saberei se no mundo há mulher”.

SERVIÇO

DE CLÓVIS PARA AMÉLIA
235 páginas
Quanto: R$ 40
Quando: hoje, 9, às 18h30
Onde: Academia Cearense de Letras - Palácio da Luz (rua do Rosário, 1 – Centro)

Domitila Andrade
domitilaandrade@opovo.com.br

Fonte: O Povo

À minha doce Amélia...

Livro reúne cartas inéditas do jurista Clóvis Bevilaqua para sua mulher, a escritora Amélia Carolina. A obra mostra outro lado da personalidade do intelectual cearense


Muito se fala do talento de jurista do cearense Clóvis Bevilaqua (1859 - 1944). O autor do projeto do Código Civil brasileiro, escrito em 1899 e promulgado apenas em 1916, foi um intelectual dedicado, cuja obra não se deixou erodir facilmente pelo tempo.

Contudo, a maioria desconhece a personalidade romântica do jurista, o amor que devotou a sua esposa, a escritora Amélia Carolina de Freitas Bevilaqua. Clóvis a tinha como musa inspiradora, seu mundo, sua base e seu tudo. À ela escreveu diversas cartas. Numa delas fez uma confissão marcada pelo lirismo: "eu não tenho outro prazer senão escrever-lhe e ler cartas suas!".

É desse amor que transborda das linhas das velhas missivas, resistente a voracidade do tempo, que o professor e presidente da Academia Sobralense de Estudos e Letras (Asel), José Luís Lira, se dedicou para a produção do livro "De Clóvis para Amélia", que será lançado hoje às 18h30, na sede da Academia Cearense de Letras (ACL).

A obra traz nove cartas inéditas do jurista cearense para sua esposa, algumas delas contém mais de 16 páginas. Há também três depoimentos, dentre os quais se destaca a emocionante homenagem feita pela filha Vellêda, após a morte do pai.

Processo
Segundo a pesquisa que deu origem ao livro começou acidentalmente, quando um amigo realizava um documentário sobre Bevilaqua e descobriu suas cartas de amor para a esposa. "Sempre fui um admirador da obra dele, desde a época da faculdade Direito. Quando meu amigo contou sobre as cartas, não pensei duas vezes: sabia que tinha diante de mim um material inédito e revelador sobre Clóvis".

Após o contato inicial com a neta do jurista, Maria Teresa, o professor viajou ao Rio de Janeiro e lá teve contato com a responsável pelo acervo, Maria Cecília, outra neta de Bevilaqua. "No dia 8 de setembro deste ano, encontrei-me com elas. Vi e fotografei todo o material. Lembro que não dormi naquela noite, fiquei acordado lendo as correspondências. Embora tenha me surpreendido em saber da existência das cartas, não foi surpresa a vívida declaração de amor, pois quando quis levar sua mulher para a Academia Brasileira de Letras, e esta vetou sua candidatura, por ser mulher, Clóvis se afastou da instituição. Amélia era a vida dele", ressalta.

As cartas foram escritas entre maio de 1882 e agosto de 1891. A grafia dos textos estão repletas de costumes e expressões da época. Lira conta que, apesar de ter sido feita a atualização para o português atual, algumas palavras necessitam de consulta para um entendimento completo. As palavras que caíram em desuso apresentam em notas indicações sinonímicas no livro; as que estão em outros idiomas foram traduzidas.

"Na maioria das cartas aqui transcritas, Clóvis e Amélia ainda não eram casados. Era uma forma de namorar (por carta), visto que Clóvis era estudante em Recife e ela morava em São Luís, no Maranhão. Em outras, já eram casados, e compunham uma espécie de álbum em comemoração ao aniversário dela", explica o organizador.

O professor comenta que foi Amélia que guardou estas cartas e que talvez ela tenha destruído as que escreveu. "Espero que eu esteja errado quanto ao destino das cartas de Amélia e que um dia outro pesquisador encontre-as e faça uma publicação. No mundo da pesquisa, tudo é possível", diz.

Em algumas correspondências, Lira tece pequenos comentários para melhor compreensão do leitor, junto a apresentação de breves biografias do jurista e sua esposa. O livro, moldado numa bela edição, onde cada detalhe faz referência à ideia de carta, é decorado por ilustrações produzidas pelo próprio Bevilaqua, revelando-nos outros traços de seu talento.

"Os desenhos realmente foram uma surpresa. São ricos em detalhes e possuem uma pureza visual, assim como era o amor dos dois. Dona Vitória, a única filha viva do casal, me contou que eles se conheceram na praia de Milagres, em Olinda. Amélia estava quase se afogando e Clóvis a salvou. Desse encontro, os dois se apaixonaram perdidamente, casaram em seguida, tiveram cinco filhas e foram felizes até o fim".

Uma história de amor que nos serve de exemplo em tempos onde as relações são efêmeras e, muitas vezes, virtuais. "Juro por quanto há nobre e grande, por tudo que eu amo e venero, pela honra, pela virtude, pelas crenças que se aninham em minha fronte, pela fé que me afervora a alma, por minha dignidade de homem, por tudo que possa acordar em mim um sentimento elevado, puro que te adoro, que te idolatro, que és o meu mundo e a minha glória", escreveu Clóvis Bevilaqua à sua amada esposa.

Livro
"De Clóvis para Amélia"
José Luís Lira (org.)
229 páginas
R$ 45 (R$ 40, no lançamento)
2011
Independente
Lançamento às 18h30, na Academia Cearense de Letras
(R. do Rosário, 1 - Centro)

ANA CECÍLIA SOARES

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Feira itinerante de literatura no Benfica


O projeto Rota das Especiarias - Temperos Literários, promoverá nesta sexta(25), na praça João Gentil (Benfica), à partir das 18h, a primeira feira itinerante de literatura. Com apoio cultura da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará e parceiros, pequenos escritores e autores independentes  terão a oportunidade de expor e comercializar suas obras.

Com uma vasta programação, envolvendo debates com escritores e profissionais ligados à cadeia produtiva do livro, performances poéticas, jam poesia, o projeto Rota das Especiarias, agrega a feira o cortejo poético com os adolescentes do Ponto de Cultura Espaço Jovem de Barreira, exposição de Videopoemas, bate-papo literário sobre: “ A cadeia produtiva do livro”, espaço poesia entre outras atividades programadas para a feira. 

No primeiro semestre desse ano, o projeto promoveu oficinas de leitura e produção textual para adolescentes de escolas públicas dos bairros onde serão realizadas as feiras. Os textos produzidos por esses alunos foram organizados na antologia Temperos Literários, que será lançada durante as feiras.

Durante dois sábados desse mês, aconteceu um curso de capacitação sobre marketing básico para pequenos editores e escritores. Na ocasião, os autores compartilharam suas experiências literárias, além de aprender noções de comércio eletrônico, networking e marca pessoal.

Para participar da feira como expositor, é necessário preencher a ficha disponível no sítio eletrônico do evento: http://www.rotadasespeciarias.art.br/entrenarota.php e, em seguida, encaminhá-la para o endereço: rotasliterarias@gmail.com

Em sua primeira edição, Rota das Especiarias também contemplará outros dois bairros, marcados pela efervescência cultural: Messejana (Praça da Igreja Central – dia 03/12) e Cidade 2000 (Praça da Av. Flamboyantes – 10/12).

Debatedores do bate-papo literário:  “ A cadeia produtiva do livro”
Raymundo Netto (Secult-Ce)
Mileide Flores (Fórum de Literatura Livro e Leitura do Estado do Ceará- FLLLEC)
Lilian Martins (Programa Autores e Ideias – FM Assembleia)
Henrique Beltrão (Rádio Universitária FM)
21:00h – Show “Poemário Musical” com Carlinhos Perdigão

Programação do evento:

Fonte: Secult-Ce

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cadê o Padre Leriano?

 Vicente Freitas e Padre Aureliano Diamantino Silveira

Após concluir o Curso Normal, voltei ao colégio para continuar o Curso Técnico. No início de cada ano escolar, geralmente ocorrem mudanças, o que aconteceu no curto período de férias em que estive em casa. A capela ganhara um novo capelão. O antigo passara a ser o vigário da Igreja Matriz em substituição ao que se consagrara Bispo da Diocese. O novo capelão era um jovem padre de 27 anos, com um rico cabedal de conhecimentos e nobres ideais. Ali, seria o seu novo campo de ação, um apostolado junto à juventude estudantil daquela Escola abençoada pelo brilhante trabalho das Irmãs de Caridade.

Pelo período de um ano, tive o prazer de conviver com essa personalidade incrível, dotada de acentuado carisma espiritual, capacidade intelectual e arguta inteligência. Durante a celebração dos atos litúrgicos, percebía-se o grau de virtudes que aureolavam aquele coração cheio do amor de Deus. Paciência, humildade, caridade tornavam-no uma pessoa querida por todos os que dele se aproximavam. Nascera com o dom da oratória, percebendo-se a facilidade de expressão em linguagem rebuscada ou coloquial, sem perder a eloquência. Uma expressão que sempre empregava em seus sermões ou palestras era: "... Depois da tempestade vem a bonança, depois da bonança vem a tempestade e depois da tempestade vem novamente a bonança".... Repetia várias vezes, talvez para gravar em nossos corações uma mensagem de fé e esperança diante das dificuldades da vida, que o importante é não desistir, levantar após cada queda e vencer as adversidades.

Um dos trabalhos que desempenhou com dedicação e amor, foi junto à JECf (Juventude Estudante Católica Feminina) da qual fiz parte e que contribuiu para a formação de  muitas jovens estudantes do meu colégio. Nossas reuniões tinham como objetivo exercer apostolado entre os jovens, levando a Palavra de Deus e convidando-os à prática do bem com base nos ensinamentos do Senhor Jesus. Eram momentos de atividade sadia em que o nosso orientador irradiava todo o seu potencial carismático e pleno de sabedoria.

Todos os dias, após a Santa Missa, as Irmãs ofereciam-lhe o café-da-manhã que era servido por Dª Antônia, uma senhora idosa, magra, de cor negra e cabelos crespos grisalhos. Sempre que procurava por ele, ia perguntando a quem encontrava: “Cadê o Padre Leriano? Você viu”? Fazia isso tantas vezes que já estava virando apelido. ”Cadê o Padre Leriano”? “Bom dia, Padre Leriano”. O nosso Capelão encarava isso com o senso de humor que lhe era peculiar. Às vezes, dizia rindo: “Chegou o Padre Leriano”! Um dia, após faltar à Missa, chegou ao colégio um pouco abatido, com um lenço em volta do pescoço, um tanto rouco. Tinha um chapéu na cabeça e usava um guarda-chuva. Ao perguntar o que sentia, respondeu, todo encolhido a um canto da sala: “Ah! minha amiga, o Padre Leriano estava encamarinhotado, com febre”. Sair naquele frio intenso da serra da Ibiapaba, não lhe era mesmo conveniente.

Durante um ano convivi com esse virtuoso apóstolo do bem, o grande servo de Deus, Padre Aureliano Diamantino Silveira, filho de Bela Cruz-CE, que deixou no meu colégio, em São Benedito, um terreno bem preparado para o rebanho do Senhor Jesus. Tenho certeza de que todas as pessoas que estiveram sob sua orientação, agradecem a Deus pela sua dedicação, sabedoria e amizade.

Há pouco tempo, encontrei-me com uma ex-colega da JECF, aqui na praça do Ferreira, que no meio de várias recordações, me perguntou: “Você sabe por onde anda o Padre Leriano”? Rimos bastante, com lágrimas de saudade, rolando pelas faces.

Maria de Jesus A. Carvalho

Fonte: Blog bric-à-brac

Blog: Ao procurar matérias para este blog me deparo com este artigo, coincidência  ou não, em 2007 meu irmão Luciano Rios foi deixar o Pe Aureliano na Rodoviária, depois dele visitar papai Arimá Silveira seu primo e amigo, foi a ultima vez que o Aureliano e Luciano vieram à Acaraú pois meu irmão  faleceu neste mesmo ano justamente hoje 22 de novembro e o Padre faleceu em 2008.


Que eles gozem da vida eterna junto de Deus!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

José de Alencar à casa torna

29 manuscritos, 13 cadernos e mais de 1.500 páginas de escritos do precursor do romance moderno brasileiro, guardados no Rio de Janeiro, voltam ao Ceará, numa revitalização da Casa José de Alencar. Os arquivos serão digitalizados e ficarão disponíveis para consulta em 2012


Alencarino (adj. masc.) – 1. Relativo ou pertencente ao escritor brasileiro José de Alencar, à sua obra ou estilo. 2. Quem nasce no Ceará, a terra de José de Alencar (informal). Variação: alencariano. Se “bom filho à casa torna”, os netos não ficam atrás. Mais de cem anos após seu falecimento, o maior símbolo da literatura cearense, José de Alencar, terá de volta ao Ceará alguns de seus filhos de papel e tinta: escritos alencarianos em terras de alencarinos. Na busca de se tornar um centro de referência em pesquisa na obra do escritor, a Casa de José de Alencar (CJA) vem num processo de repatriamento de 13 cadernos do messejanense, totalizando cerca de 1.500 páginas de manuscritos do autor.

O repatriamento é apenas uma das três etapas atuais no processo de revitalização do espaço da casa onde José de Alencar residiu na infância, em Messejana, tendo nascido em 1829. O equipamento, gerido pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e dirigido pelo professor João Arruda, busca se tornar um centro de referência em pesquisa na obra literária, crítica e até filosófico-antropológica de José de Alencar, de acordo com o diretor do espaço.

A primeira fase foi a digitalização de todo o material físico escrito por José de Alencar (ou transcrito por Mário de Alencar, seu filho). O processo começou com a pesquisa do professor Marcelo Peloggio, do departamento de Literatura da UFC, que despontou no lançamento do livro filosófico-antropológico Antiguidade da América e A raça primogênita. “Antes só existia como registro físico; você tinha que ir ao Rio de Janeiro e ter uma autorização especial para lidar com esse material, agora vai ficar disponibilizado para quem tiver interesse”, disse Marcelo Peloggio. Os dois escritos que formaram o livro serviram de pontapé para a digitalização de todo o material do Museu Histórico Nacional (MHN), que poderá ser acessado na própria biblioteca do CJA a partir de maio de 2012.

Complementando a primeira fase, a segunda parte do processo contou com a organização de um livro com os resumos de todos os arquivos com domínio da CJA. “A gente tinha notado que havia certa dificuldade para o estudante, dado o volume da obra de José de Alencar, em qual a literatura que podia contribuir em sua pesquisa”, explica o professor João Arruda, diretor da Casa. Esse livro, de acordo com o diretor da CJA, já está sendo distribuído para bibliotecas públicas e cursos de letras de universidade públicas. “Vai ser um Google de José de Alencar”, brinca.

A fase final, planejada para culminar no ano próximo, será o repatriamento das obras armazenadas no arquivo histórico do MHN. Daniella Gomes, responsável pelo arquivo histórico do museu, lembra da magnitude dos manuscritos, somando 1.500 páginas de arquivos do século retrasado. De acordo com João Arruda, porém, esses documentos em breve devem partir para a Casa de José de Alencar, onde poderão ser consultados por estudiosos e curiosos sobre as outras facetas do cearense.

Apesar de precursor no romance genuinamente brasileiro e com uma obra extensa, contando cerca de 20 romances publicados entre 1856 e 1877, José de Alencar deixou para as gerações futuras ainda 29 manuscritos, todos mantidos na segurança do Museu Histórico Nacional – mas fugindo da terra do autor e seus conterrâneos em muitos quilômetros. Entre as obras digitalizadas em breve disponibilizadas para todo o público, se destacam os textos filosóficos-antropológicos editados por Marcelo Peloggio no ano passado, os originais da autobiografia e trechos da primeira tentativa de romance de Alencar, Os contrabandistas, que nunca foi finalizado.

SERVIÇO

Casa José de Alencar (avenida Washington Soares, 6055 – Alagadiço Novo).

Visitação: Segunda à sexta-feira das 8h às 17h; sábados e domingos e feriados das 8h às 15h.
Entrada gratuita.
Outras informações: (85) 3276 2379 / 3229 1898


André Bloc
andrebloc@opovo.com.br

Fonte: O Povo

sábado, 12 de novembro de 2011

Para Mamíferos Alimento da alma

Em sua terceira edição, a revista "Para Mamíferos" comprova sua vocação para fazer descobrir a literatura e as artes feitas no Ceará

Obra do artista plástico Leonilson na Praia de Iracema: desenhos em preto e branco lembram ilustração da contra-capa da revista. Justa homenagem ao legado do cearense FOTO: PATRÍCIA ARAÚJO (05/02/2009)

Para guardar. Hoje, qualquer publicação digna de tal veredicto merece respeito. Assim foi com as duas primeiras edições da "Para Mamíferos", revista de literatura e artes publicada de maneira independente em Fortaleza. O terceiro número não é diferente, e chega com lugar reservado às estantes dos leitores. Lançada no começo deste mês, traz como destaques uma entrevista com o jornalista, publicitário, pesquisador e ficcionista Gilmar de Carvalho, e longa matéria com grande conhecedor do rádio cearense, o radialista Narcélio Limaverde.

A revista é editada por um time de escritores - Tércia Montenegro, Jesus Irajacy Costa, Pedro Salgueiro, Glauco Sobreira e Raymundo Netto, ao lado do jornalista e professor Nerilson Moreira. Um time forte e, acima de tudo, movido pela paixão.

E é isso que torna a "Para Mamíferos" uma das publicações mais interessantes dos últimos anos no Ceará. "Os apoios pagam 70% dos custos da revista, são dois anunciantes diferentes a cada edição. O resto financiamos do nosso próprio bolso, além de preparar o material em horários fora do expediente de trabalho", explica Nerilson.

"É difícil. Fazemos por amor, por essa vontade de possibilitar um momento de reflexão sobre arte e literatura cearenses e de lançar novos poetas e escritores", complementa o jornalista.

Lançada no começo deste mês, a revista está à venda por R$ 10 em bancas de jornais (especialmente das avenidas Washington Soares, Borges de Melo e Praça do Carmo, no Centro) e em livrarias próximas à Reitoria da UFC. Ela também circula no meio acadêmico brasileiro (principalmente os cursos de Letras) e em países como Venezuela, Peru, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Portugal, Espanha, Itália, França e Holanda.

Nesta edição, a capa é ilustrada com uma obra inédita do artista plástico cearense Leonildo (falecido em 1993), seguida do sensível texto de apresentação de Dodora Guimarães. Por meio da família do artista, os editores tiveram acesso a um de seus cadernos de desenhos e resolveram fazer a homenagem.

Ainda na lista de colaboradores, o poeta, radialista e compositor, Henrique Beltrão participada coluna "Literatrilhas", junto com a psicóloga e pesquisadora Karla Martins. Dessa vez o destino foi Nantes, na França.

Em "Numa Outra Língua", sessão dedicada à tradução inédita, o conto "El Barranco" de José Maria Arguedas (escritor e antropólogo peruano que estaria completando 100 anos em 2011) é passado a limpo por Everardo Norões, e os poemas da irlandesa Eiléan Ní Chilleanáin nos chegam pela voz da curitibana Luci Collin.

A matéria "Interiores" ocupa o espaço "Dossiê cearense" da nova edição. Sabido que muitos dos escritores do Estado, mesmo os residentes na Capital, vêm do Interior, a "Para Mamíferos" voltou os olhos para algumas das regiões do Ceará, e encontrou: Dimas Carvalho (Acaraú), Joan Edesson (Cedro), Luciano Bonfim (Crateús), Társio Pinheiro, Dércio Braúna, Kelson Oliveira (os três de Limoeiro do Norte) e Webston Moura (Morada Nova).

Já Nerilson Moreira pinta, ao longo de oito páginas, um retrato envolvente não apenas do colega jornalista e radialista Narcélio Limaverde, mas da própria história do rádio cearense.

Mas a verdadeira pérola é a seção "Resgate de Arquivo", na qual o pesquisador e escritor Gilmar de Carvalho deixa de lado sua característica discrição para entregar aos leitores não apenas uma bela entrevista, mas fotos inéditas de seu arquivo pessoal. As imagens revelam desde o jovem estudante ainda farto de cabelos até registros recentes.

Há ainda espaço para as esculturas do metalista Lúcio Cleto (Mostra Reciclarte, Espaço Cultural dos Correios, Mostra 8 de maio - Unifor, dentre outros), acompanhadas dos versos do Poeta de Meia-Tigela (Alves de Aquino); para a produção poética e de contos de autores como Raymundo Netto, Ceronha Pontes, entre outros; para uma reflexão sobre teatro, por Thiago Arrais; entre outras colaborações.

"A revista atende a todas as classes e idades, desde jovens até idosos, todo mundo. Já soube de professores que adotaram a revista em sala, para seus alunos discutirem", comemora Nerilson. "O objetivo era bem esse, criar um lugar onde pudéssemos colocar novas ideias. Não recebemos artigos, convidamos colaboradores de acordo com as pautas acertadas".

Revista Para Mamíferos
Expressão Gráfica e editora
2011
94 páginas
R$ 10

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Por que lembrar Rachel?


Trabalhamos demais. Atropelamos as relações e deixamos de cuidar dos sentimentos. Excedemos o limite do consumismo e embriagados pelo desejo do mais, ignoramos as tantas coisas boas da vida, como tomar um café com a grande amiga, no meio do dia. E assim, nesta vida louca, de poucas horas, de correria exagerada, de pressa e pressão, cobrança e prazo, penso que nos acorrentamos ao mundo do trabalho. 

Por isso, ultimamente, venho me dedicando mais às coisas boas da vida, que são subjetivas, sim, mas na essência são sempre traduzidas no fazer o que gostamos com quem amamos. 

Gosto das palavras, do seu poder e das suas múltiplas formas de expressão: escrita, interpretada, discursada, cantada ou encenada. Esse gostar me fez lembrar Rachel de Queiroz no ensaio aberto de Élida Marques interpretando sua obra, num delicioso café, cheio de arte, no meio do dia. Aliás, não posso deixar de dizer que a arte nos humaniza; por isso é essencial, ela abre a mente e nos permite emoção. 

Rachel não queria escrever sua autobiografia, mas, seduzida pela afetividade da irmã, quase filha, de certo alma gêmea, escreveu sua história de forma encantadora... Tantos Anos esteve comigo e como um milagre ou coincidência, como prefiram, no mesmo dia em que fechei a última página do livro, a autora fechou os olhos para a vida, em 04 de novembro de 2003.    

E morreu silenciosamente, feito a revolução que travou na literatura brasileira. Ela, a primeira mulher a conquistar a imortalidade na Academia Brasileira de Letras, escreveu a história do nosso país. E abriu caminhos: com fibra, coragem, e determinação - talvez, como ela própria tenha dito, características não suas, mas inerentes à juventude – enfrentou políticos, sistemas e cartéis. Sempre em nome da ética e da cidadania. E não foi em vão, sua obra revela a legitimidade da consciência política, cultural e intelectual com que se dedicou ao mundo das letras. Assim é seu livro de memórias: mais do que sua história, Tantos Anos conta a história do nosso Brasil e da nossa gente. Uma interpretação genuína do sertão seco do Ceará, num jeito leve e sedutor de invadir lembranças, suscitar sentimentos e marcar história. 

Preocupada com o papel da mulher na sociedade moderna, Rachel rasgou preconceitos e cavou seu espaço (...) e de todas as que vieram depois dela. Hoje, quando gozamos dos diretos adquiridos, profissional ou maternalmente, bem pouco nos lembramos do caminho trilhado: uma longa história escrita, a punho, por bravas mulheres.     

Mas, o motivo gerador destas poucas palavras não se encontra na tentativa estúpida de mais uma homenagem pós-morte - gesto hipócrita de lavar a consciência e pedir desculpas pelas faltas em vida – e sim, no intenso significado da sua obra, que conserva o poder histórico nas palavras escritas, que eterniza a possibilidade do aprender sempre e que conforta a alma dos brasileiros que choram o descaso cultural do seu país.  

Um país que não aprendeu a valorizar seus escritores e intelectuais e que, por isso, não registra nas memórias do seu povo a lembrança de ter lido seus livros nos bancos escolares. Desde muito tempo, os livros didáticos trazem os resumos das obras dos nossos escritores, como se isso bastasse. São poucas as escolas que possibilitam o contato com a obra: os resumos são mais rápidos e fáceis. O trabalho diminui e o aprendizado também.   

Afinal, num país com pressa, de ações imediatistas, por que perder tempo com leituras? Por que lembrar Rachel, Drummond ou Machado de Assis?

por Mércia Falcini
Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Consultora da Fundação Pitágoras e colunista do site Itu.com.br.
 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O bode cidadão

O boêmio de quatro patas mais famoso do Ceará ganha mais uma publicação, desta vez para os pequeninos. "Yoiô - O bode celebridade", com texto de Arlene Holanda e desenhos de Julião Jr., será lançado amanhã no Museu do Ceará, atual residência do bode artista

Atualmente, o bode Yoiô permanece empalhado no Museu do Ceará, onde pode ser visitado diariamente
FOTO: JOSÉ LEOMAR

Na encarnada sala do Museu do Ceará, repousa sereno um herói cearense. Boêmio inveterado (apreciador de uma boa aguardente), pós-graduado em becos do Centro de Fortaleza, companheiro de artistas e intelectuais em noturnos cafés e, ainda, político honesto, já que ganhou sem se candidatar e não cumpriu, mas também não prometeu.

Ele, bode Yoiô, protagonizou alguns dos causos mais memoráveis da Praça do Ferreira, no coração de Fortaleza, e agora tem sua história registrada em versos, pela escritora Arlene Holanda, e em traços, pelo ilustrador Julião Jr. Uma história para crianças de todas as idades. "Yoiô - O bode celebridade", editado pelo selo Armazém da Criança, do Armazém da Cultura, será lançado, amanhã, ali mesmo, no Museu do Ceará.

O bicho
O livro conta a saga do caprino mestiço (com forte predominância da raça alpina - é o fraco!), que viveu na Capital cearense perambulando entre bares e ruas do centro no início do século XX. Segundo se difunde, o bode teria vindo junto a retirantes, fugidos da seca de 1915.

Seu então proprietário, diante do dilema entre a panela e o bolso, preferiu - para sorte da boemia de Fortaleza - arrecadar uns vinténs com o animal. Foi vendido para um representante de uma empresa britânica no nordeste, a Rossbach Brazil Company, da qual se tornou uma espécie de mascote. Com propriedade agora localizada na Praia de Iracema, o bode, outrora mofino, puxado por uma corda de amarrar punho de rede, já não estava na pior.

No entanto, não demorou para que a comilança do mato que circundava as dependências da empresa lhe entediasse por demais. O caprino era mesmo afeito a vadiagens e logo seguiu sua sina de andarilho, descobrindo o trajeto que lhe daria a alcunha de "ioiô". O bode aprendeu a partir da praia a seguir para a Praça do Ferreira, realizando o mesmo percurso diariamente.

O boêmio
E foi nos passeios que conheceu a noite fortalezense e seus muitos companheiros. No entorno do famoso Café Java (sede-mor da Padaria Espiritual, inclusive), conheceu escritores, pensadores, músicos, atores, inúmeros artistas de mesas de bar.

Com eles, passeava pelas ruas, ia a teatros, saraus, coretos; deles fora batizado Yoiô e por eles conheceu ainda as delícias da cana-de-açúcar, a bebida destilada preferida, que recebia gratuitamente a cada estabelecimento frequentado. De cara, simpatizou-se por ele o pintor Raimundo Cela, mas foi por todos amado, considerado um cidadão como outro qualquer.


O político
Ainda em 1921, Yoiô aprontaria uma molecagem que o consagraria como autêntico amigo do povão. Naquela época, inaugurava-se nas imediações da praça aquele que seria um dos cinemas mais movimentados da época: o Cine Moderno.

A população chegava de bonde e as celebridades desciam de seus Chevrolets e aguardavam com expectativa a chegada do governador Justiniano de Serpa e do intendente Godofredo Maciel para a cerimônia.

Mas o danado do bode (provavelmente "cheio dos pau", como se diz em bom "cearês") cansou de esperar. Trotou com suas quatro patas até a fachada do prédio e fez as vezes de político: comeu a fita inaugural do cinema. No mesmo ano, lá estavam os intelectuais candidatando Yoiô para vereador de Fortaleza. Mas candidatura não quer dizer vitória! Quem disse? Quando se abriram as urnas, em 1922, o nome do bode saltava das cédulas. Não pode assumir o cargo, mas, mais uma vez, entrou para a história da cidade.

O amante
Segundo afirmavam as companhias, além do jeito para as artes, o bode era um exímio entendedor de mulheres. Buliçoso, levantava com o chifre as barras das saias e dos vestidos das moças, garantindo ao macharal a boa vista.

A vida de boemia e libertinagem naturalmente não lhe pouparia da mortalidade, ao contrário, a aproximaria dela. O caprino deixou as ruas de Fortaleza em 1931, encontrado morto nas proximidades da Praça do Ferreira. Como homenagem, Adolfo Caminha resolveu empalhá-lo e é justamente sua figura que se encontra preservada no Museu do Ceará. Bom, preservada em termos, já que, em 1996, lhe roubaram o rabo (o que protagonizou nova história, ainda que "in memoriam").

Nos anais da história, consta que a "causa-mortis" fora, de fato, resultado da vadiagem: cirrose hepática. As malignas línguas, no entanto, dividem-se em duas hipóteses: noivo furioso ou atentado político.

Durante o lançamento de "Yoiô - O bode celebridade", haverá ainda a abertura da exposição "Brinquedos do Mundo", apresentação do teatro de bonecos "O sonho de Dorinha no Museu do Ceará", além de oficinas de confecção de brinquedos, em parceria com o Labrinjo - Laboratório de Brinquedos e Jogos da UFC.

Cultura cearense 

Yoiô - O Bode Celebridade  
Arlene Holanda
Armazém da cultura
2011
23 páginas
R$ 20

Ilustrações de Julião Jr. O lançamento acontece amanhã, às 10h, no Museu do Ceará (R. São Paulo, 51). Contato: (85) 3224.9780

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

domingo, 23 de outubro de 2011

Pelas páginas cearenses

O contista e cronista Pedro Salgueiro reme- mora a história do gênero no Ceará. Entre os muitos que se debruçaram sobre os fatos e paisagens do nosso Estado, destacam-se Milton Dias, Ciro Colares e Rachel de Queiroz

O escritor Pedro Salgueiro é autor de cinco livros, entre eles quatro de contos e um de crônica: "Fortaleza Voadora"

Ao encontro de um traço único da crônica cearense, não posso dizer que tenha tido muito sucesso. O formato das crônicas e o modo como e onde nascem parecem não mudar muito de lugar para lugar. A única diferença (não menos preciosa, no entanto) é o fato de que reconhecemos bem de que fala o cronista, quando não conhecemos a ele próprio, pessoalmente, relação que confere as suas palavras outro tempero.

No Ceará, são nossas paisagens, ruas e fatos que estão no foco das lentes literária sempre a postos dos cronistas. Fala-se de algo de nossa pertença. E quem, desde jovem, aprendeu a ler Fortaleza pelas linhas dos cronistas semanais foi o escritor e também cronista Pedro Salgueiro. Por meio dele e de suas memórias, iniciamos esse passeio pelos sujeitos que dão cor à crônica da terrinha.

Lirismo
Quando jovem, dos nomes rememorados por Pedro Salgueiro, o primeiro que vêm à lembrança é o daquele considerado o maior cronista da história do Ceará: Milton Dias (1919-1983).

Nascido em Ipu, Milton descobriu ainda no colégio sua vocação para a escrita. Quando adulto, dividiu-se entre dois amores, a língua materna e o francês, que estudou por muitos anos na própria França. Já no Ceará, tornou-se professor de Língua e Literatura Francesa na Universidade Federal do Ceará (UFC). Mas se a pesquisa e a docência lhe impulsionavam ao idioma estrangeiro, as crônicas lhe traziam de volta ao seio de sua terra. Livros como "Relembranças" e "As Cunhãs" revelam seu trato com o bom português. "Milton era cheio de lirismo. Lembrava a escrita de Rubem Braga algumas vezes", rememora Salgueiro.

Desta mesma época, o escritor lembra ainda outro nome, aliás, pouco conhecido por suas crônicas: Moreira Campos. Também professor de Letras na UFC e sócio-fundador do movimento literário conhecido por Grupo Clã, do qual Milton Dias fez parte, Moreira foi muito mais condecorado por seus contos do que por sua crônica e poesia. "Algumas pessoas dedicam-se a pesquisar Moreira Campos no Ceará, mas não conheço quem tenha estudado esta vertente de cronista, muito menos a de poeta, já que ele só lançou um livro do gênero", comenta.

Ímpares
Agora, a figura ímpar, imprescindível ao se falar do gênero no Ceará é certamente Ciro Colares. O jornalista forjou-se inicialmente entre as máquinas do Correio do Ceará, onde trabalhava o pai. Aos 18 anos, ingressou no jornal, mas como revisor. Apenas em 1946 começou a escrever e, desde então, foram 60 anos de jornalismo. Entre tantas produções, foi colunista também do Diário do Nordeste, integrando o Caderno 3 aos domingos, no fim dos anos 90.

"O Ciro é um sujeito à parte mesmo, por que é muito importante. O modo como ele se referia a Fortaleza era único, ele conseguiu escrever crônicas atemporais ainda que tratassem de acontecimentos factuais. Ele tinha uma escrita de que eu gostava muito, pois lembrava o Manuel Bandeira cronista. De excelente qualidade", reforça Pedro.

De fato, a escrita de Ciro Colares, registrada em 17 livros de crônica, se destacou pelo carinho com que tratava de Fortaleza, escrita em tal estilo que lembrava muito mais uma poesia.

Aqui, criou personagens como as sereias que dizia existir nos mares da Capital, a qual batizou Fortalezamada. Recentemente, a memória de Ciro foi preservada em livro, escrito pela jornalista Lucíola Limaverde: "Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza".

Além do talento de encontrar e criar personagens, o cronista é aquele possuidor da dileta virtude de se tornar personagem e, nesse sentido, Airton Monte, ainda hoje, tem sido um mestre.

Ele, esposo devoto de Sônia, a quem chama de "santa" (porque será?); ele, que em seus textos revelou o gosto por andar nu pela casa; ele, psiquiatra, que confessou morrer de medo de médicos; ele que teorizou: "Há mais vantagens em viver sozinho do que usar o banheiro com a porta aberta". A trajetória do escritor também foi repassada no livro-reportagem "Airton no divã - várias faces do boêmio", da jornalista Anamélia Sampaio Farias.

Em termos de visibilidade, contudo, um nome entre os cearenses desta seara se destaca: certamente Rachel de Queiroz. Uma das poucas mulheres citadas entre os muitos homens adeptos do gênero, Rachel fez uma porção de leitores da revista "O Cruzeiro" começarem a leitura pelo fim, já que suas crônicas iam publicadas na última página do periódico.

Muito antes, no entanto, de tornar-se escritora exclusiva da revista carioca, Rachel havia sido cronista de jornais como Correio da Manhã e Diário da Tarde, e, ainda antes, colunista de O Ceará, onde começou, muito nova, sob o pseudônimo Rita de Queluz. Entre seus trabalhos, constam pelo menos 14 livros de crônica.

"Comparando a crônica cearense com a de outros estados creio que não há muita diferença. Nossos temas são parecidos, o que muda mesmo é o estilo. Rachel tinha um jeito único de conversar com o leitor. Alguns são mais líricos, como já citei, outros preferem tratar do cotidiano, como o jornalista Gervásio de Paula, do Diário do Nordeste, que gosto muito. Já outros são mais cerebrais, mais densos como Ana Miranda, que escreve verdadeiros tratados, com muita pesquisa e informações", relaciona o escritor.

Contemporâneos
Segundo Pedro Salgueiro, que figura entre os cronistas cearenses contemporâneos, a popularização dos blogs na internet tem surtido efeito também na produção literária cearense. "Além dos jornais, acompanho também muitos blogs de escritores que postam quase que diariamente. Eles tem rendido, sim, bons escritores de crônica", afirma.

Entre eles, Pedro cita o blog Literatura Sem Fronteiras, de Nilto Maciel literaturasemfronteiras.blogspot.com). "O Nilto tem um modo interessante de fazer crônica porque, muitas vezes, faz uso de seu estilo para fazer uma resenha de livro, por exemplo. Ele cria um personagem fictício e começa a debater com ele, iniciando uma conversa sobre o certo título...", comenta. Além de Nilto, uma leva de outros bons cronistas vem sendo composta, entre outros, por Raymundo Netto, Flávio Paiva (também do Diário do Nordeste) e Tércia Montenegro, todos vez em quando papeando em nossos jornais.

Fique por dentro

Crônica N° 1*
Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e  nos apresentemos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você, - os responsáveis por ela, - nos conhecermos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do "enfim sós".

Cá estamos também os dois no nosso "enfim sós" - e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto: Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu.

*Crônica de estreia de Rachel de Queiroz na revista "O Cruzeiro"

Amar uma cidade*
Amar uma cidade parece estranho, ela não tem diálogo, ela não tem sexo pra despertar pensamentos eróticos, mas às vezes se ama até mesmo um beco, o que parece ser uma bobagem, e o que é o amor senão uma bobagem?

uma ingenuidade ocasional, um desvio ou descarrilamento da razão?

Não se ama com a cabeça, ama-se sem saber porque, ama-se quase acidentalmente.

As cidades não são apenas os problemas do mostruário,

o ônibus cheio, a criança sem pão, o desastre inevitável,

uma cidade pode ser também aquela moça que está nua no supermercado,

a gente se aproxima e a ilusão se dissipa dentro de nossas lentes de grau, uma cidade pode ser esse momento de utopia.

*Trecho de Ciro Colares

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Fundação no Ceará oferece oficina de história em quadrinhos a crianças

Fundação tem mais de 70 publicações com ilustração de crianças.
Jovens também têm funções e tomam conta da fundação.




A Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, no Sul do Ceará, realiza oficina de história em quadrinhos para crianças da região. A fundação que já publicou mais de 70 títulos, tem como foco de seus roteiros a educação ambiental, importância da leitura para crianças e a história dos índios cariri.

O professor da oficina de história em quadrinho, Spacca, dá dicas profissionais às crianças, mas ressalta que não pode limitar a criatividade típica das crianças. “O objetivo é transmitir um pouco da experiência que a gente tem, no sentido de aumentar o repertório deles e oferecer mais técnica, mas sem descaracterizar a criatividade que eles já têm”, diz o professor.

O estudante Felipe Alves, que já tem desenhos publicados nos livros da Fundação Casa Grande, diz que os conhecimentos adquiridos na oficina de quadrinhos ajudou no seu desenvolvimento do seu talento, “principalmente no ponto de vista do desenho, que eu aprendi perspectiva e outras coisas que ajudam a melhorar o desenho”.

A estudante e recepcionista da fundação, Tainara Alves, que gosta de escrever poesia, diz que os desenhos ajudam na criatividades dos textos. “Quando você faz o desenho, ajuda a refletir aquilo que você escrever”, diz a garota.

Já o gerente da biblioteca, José Wilson, diz que as publicações que eles produzem transmitem conhecimento aos leitores. “Leio muitas histórias e crio as minhas próprias interpretando através do gibi. É uma forma de repassar às crianças o que a gente aprende.”

Beatriz Alcantara é a conferencista de terça-feira (18), na Academia Cearense de Letras

Beatriz Alcantara e o adido de Imprensa junto à Embaixada de Portugal, jornalista Carlos Fino

Na proxima terça feira, dia 18, a professora e poetisa Beatriz Alcantara, um dos nomes mais prestigiosos da cultura portuguesa e cearense estará a participar do ciclo de conferencias que a Academia Cearense de Letras está a oferecer em 2011

A ilustre luso-brasileira – que foi Primeira Dama do Ceará (Beatriz Alcantara é esposa do ex-Governador Lucio Alcantara ) e sua conferencia, em que  falará sobre “Portugalde Pastores, Guerreiros e Monges, será realizada às 17 horas, no salão nobre da Academia Cearense de Letras

Graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará-UFC e Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília-UNB. Professora Adjunta de Língua e Literatura Francesas da Universidade Estadual do Ceará-UECE. Membro da Academia Cearense de Letras, cadeira nº16. Membro da Academia de Letras e Ciências de São Lourenço, cadeira nº70. Ex-Diretora do Theatro José de Alencar de Fortaleza. Editora de todos os números da Revista Seara de Literatura e coordenadora-geral dos quatro primeiros números da ESPIRAL: revista de Literatura.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ana Miranda é homenageada no Festival UFC de Cultura

A escritora Ana Miranda abre os debates literários do IV Festival de Cultura da UFC, na próxima segunda-feira, às 16 horas, no auditório da Reitora da UFC e recebe homenagem

Foto: Rafael Cavalcante
Ana Miranda arrumava a casa, ontem pela manhã, quando atendeu ao telefone. “Estou aqui cuidando da casa, a caseira não está”. O motivo da conversa era a homenagem que ela receberá segunda-feira, no IV Festival UFC de Cultura. “A homenagem é uma forma de reconhecimento e também é um estímulo para o escritor que faz um trabalho tão solitário. Aqui, as pessoas têm esse sentimento de demonstrar afeto. Acho muito bonito, é muito bom. Mas, a grande homenagem é a leitura do livro. Como diz Borges, um livro é apenas uma folha de papel e tinta. O livro só existe pelo que ele faz dentro da mente das pessoas”, afirma a escritora serena, do outro lado da linha.

Desde que trocou o Rio de Janeiro pela beira da praia do Ceará – a escritora mora há cinco anos na Prainha – Ana Miranda reencontrou-se com o Estado onde nasceu. E trocou de mar. Quando criança, viveu na Praia de Iracema e as memórias dessa infância praieira e de uma Fortaleza mais tranquila, vira e mexe aparecem nas crônicas.

Segunda-feira (17), ela participa de uma entrevista para falar sobre literatura. Pergunto a ela como é responder praticamente às mesmas questões levantadas por jornalistas. Ela dá uma risada: “Não tem problema, não. Eu dou as mesmas respostas”, brinca. Durante alguns anos, Ana Miranda ministrou, em São Paulo, oficinas para escritores e escreveu sobre literatura para a revista Caros Amigos. Chegou até mesmo a pensar em escrever um livro sobre a “carpintaria do escritor”, mas desistiu. “Essa não é a responsabilidade do escritor. Literatura é uma arte que não tem professor. O autor se faz à medida que vai construindo o romance. Eu aprendi lendo romances. O livro é que seduz, que enfeitiça”, sugere. Durante a entrevista com escritores e jornalista, depois de amanhã, Ana vai falar sobre sua trajetória como escritora.

Ana Miranda, jovem, começou poeta e ilustradora. Fez-se romancista, mas nunca abandonou a poesia. No fim dos anos 80, lançou Boca do Inferno (1989), um romance histórico que tem como personagem principal o baiano Gregório de Matos Guerra, o poeta maldito nacional, do século XVII. A escritora conta que ficou quase 10 anos escrevendo o livro. Quando saiu, tornou-se um marco na literatura nacional. Um naco da história do Brasil colonial encontrou nos elementos ficcionais da criação artística de Ana Miranda uma composição que transforma história em linguagem literária. Aliás, o intenso trabalho de recuperação de formas da fala e escrita que pareciam perdidas no tempo é a matéria prima da produção literária da escritora.

Ao romance Boca do Inferno, seguiram-se A última Quimera (1995) e Desmundo (1996) formando uma trilogia de romances que têm como pano de fundo histórico uma nação às voltas com sua formação literária e social. O poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) é o motivo deste romance que carrega junto com a história, a lírica do poeta. Oribela é a personagem de Desmundo. A menina órfã portuguesa chega ao Brasil em 1555, junto com outras moças que eram enviadas pela rainha de Portugal como mulheres dos cristãos que se aventuravam em povoar a nova colônia. Para contar a história de Oribela, Desmundo recria o português medieval, mergulha na desconhecida história das mulheres que habitavam o berço do que iria se chamar Brasil e faz nascer a heroína com a força da palavra literária.

Em Amrik é Amina quem enxerga o País, no século XIX, na aventura da imigração libanesa no Brasil. Dias e Dias, o mais lírico dos romances da escritora, Ana retorna aos poetas. Desta vez Gonçalves Dias é recriado pela saudade de Feliciana, narradora apaixonada do romance. O último romance de Ana é Yuxin. Neste, a escritora inventa o mundo de Yuxin, a índia narradora da história, e a língua com a qual Yuxin dá voz a esse mundo literário que se dá no início do século XX, nas matas do Acre. Trata-se de um romance que é conduzido pelos mistérios que envolvem a personagem, o lugar, o povo e as lembranças que se traduzem pelos sentimentos de amor e de perda. No fim das contas, o livro trata da intimidade de toda alma humana, que traduzindo, significa yuxin.

SERVIÇO
Debate Literário com Ana Miranda

O que: a escritora cearense participa de entrevista e é homenageada do IV Festival UFC de Cultura.
Quando: 17 de outubro (segunda-feira), às 16 horas.
Onde: Auditório Castelo Branco - Reitoria da UFC (Avenida da Universidade, 2953 - Benfica).
Aberto ao público.

Regina Ribeiro
reginaribeiro@opovo.com.br

Fonte: O Povo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Memória repaginada

Com a chegada de três novos títulos, a Coleção Nossa Cultura, da Secretaria da Cultura do Ceará, reforça a tradição da literatura do Estado

Jáder de Carvalho-Ilustração Audifax Rios

Revelar a riqueza do Ceará aos próprios cearenses. Em última instância, é esse o objetivo da Coleção Nossa Cultura, ação da Secretaria da Cultura do Ceará inserida na construção de uma política voltada ao livro e à leitura. Embora situado no campo da literatura, o programa revela contornos mais abrangentes, ao fazer emergir e manter em circulação uma parte largamente desconhecida da produção intelectual do Estado.

Neste ano, a Coleção ganhou novos títulos, que agora se somam aos anteriores nos acervos das bibliotecas estaduais: "Américo Facó: obra perdida", com obras do autor mencionado; "O Canto Novo da Raça", dos escritores Jáder de Carvalho, Sidney Netto, Mozart Firmeza e Franklin Nascimento, e "Romanceiro de Bárbara", de Caetano Ximenes de Aragão.

Mozart Firmeza-Ilustração Audifax Rios

Os três livros fazem parte da série "Luz do Ceará", uma das quatro da Coleção Nossa Cultura (as outras são "Memória", "Panorama Nacional" e "Biblioteca Bolivariana").

"Sinfonia Negra", de 1946 (descoberta preciosa, por ser composto, em boa parte, de narrativas), e "Poesia Perdida", de 1951, são os dois trabalhos de Facó presentes em "Obra perdida". O reconhecimento chega em hora oportuna, frente ao aniversário de 126 anos de nascimento que o escritor comemoraria em 2011.

"Obra perdida" foi elaborada a partir da investigação das edições príncipes do autor na Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel, com o acréscimo de novas ilustrações.

Já "Romanceiro de Bárbara" foi originalmente escrito entre julho de 1975 a agosto de 1978, com o intuito de registrar a trajetória histórica de Bárbara de Alencar, nascida no Exu, Pernambuco, em 1760, e morta no Piauí, em 1832.

Franklin Nascimento-Ilustração Audifax Rios

Trata-se de um conjunto de 77 poemas com acentuada influência da poesia popular do Nordeste. Esta segunda edição, que chega mais de 30 anos após a primeira, traz a apresentação do poeta Francisco Carvalho, texto originalmente publicado no caderno "Exercícios de Literatura", das Edições UFC (1990), e um estudo biobibliográfico do Prof. Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Por fim, "O Canto Novo da Raça", cuja primeira edição data de 1927, reúne poemas dos quatro autores considerados pioneiros do Modernismo no Ceará. O texto de apresentação ficou por conta de Sânzio de Azevedo, colaborador fundamental também em outros momentos do projeto.

Disseminar
Embora lançados neste ano, as três reedições foram elaboradas ao longo do ano de 2010, juntamente com outro projeto de fôlego da coleção, uma série de 10 volumes com reedições de obras de Juvenal Galeno.

"Juvenal Galeno: obra completa" faz parte da série "Memória", e traz inclusive trabalhos que nunca haviam sido publicados - a exemplo de "Quem com ferro fere, com ferro será ferido", primeiro texto teatral escrito e encenado no Ceará, datado de 1859".

"Esse texto tem importância fundamental tanto para a literatura quanto para as artes cênicas cearenses. O manuscrito estava com Ricardo Guilherme, descobrimos isso ao longo das pesquisas. Até a Casa de Juvenal Galeno dava-o como perdido", comemora Raymundo Netto, coordenador editorial da Secult e responsável pela Coleção.

"A elaboração dessa série foi repleta de descobertas como essa, encontramos coisas raríssimas como cartas de Gonçalves Dias a Galeno, entre outras. Tivemos o maior cuidado, porque embora ele não seja nosso principal poeta, é o mais significativo. Foi pioneiro em todos os aspectos que se possa imaginar no campo da escrita", complementa o coordenador.

Sidney Netto-Ilustração Audifax Rios

Entre os dez volumes, Netto destaca alguns como "Prelúdios Poéticos", primeiro livro escrito por Juvenal. "É um marco do romantismo cearense. Galeno lançou-o no Rio de Janeiro e chegou aqui com apenas dois exemplares. Um estava com a família, outro na biblioteca pública", recorda.

"Agora as obras estão ao alcance de todos. Costumo dizer que, nesse projeto, o livro em si nem é o mais importante, mas sim o resgate da cultura e da memória, de democratizar o acesso a essas obras e estimular pesquisas. Olhamos nossos poetas como se fossem menores, mas, na verdade, não os conhecemos. Vários grandes livros da literatura cearense nunca chegaram a ter uma segunda edição", pondera Netto.

Ao longo desse trabalho, o coordenador destaca colaborações importantes como a de Sânzio de Azevedo. "Ele foi um consultor constante", reconhece. O elogio vem de volta. "Juvenal Galeno não era mais lido porque ninguém encontrava mais seus livros, nem em sebos. Agora, todos poderão conhecê-lo, graças ao trabalho de Raymundo", observa Sânzio.

As loas estendem-se inclusive por parte de outros pesquisadores. "Nosso mercado editorial ainda é tímido, e muitas vezes não dá importância ao que foi feito antes. Então iniciativas como essa são oportunas", elogia o professor Gilmar de Carvalho.

"É um material que precisa estar nas bibliotecas, precisa circular e sair dessa rubrica de ´obras raras´. Embora muita coisa já tenha sido reeditada, gostaria de ver outras iniciativas nesse sentido", torce Gilmar.

Entre possíveis sugestões para futuros relançamentos, o professor destaca dois livros. "´A Divorciada´, de Francisca Clotilde, e ´Rainha do Ignoto´, de Emília Freitas, seriam títulos interessantes nesse momento em que se fala tanto da questão de gênero, por serem de duas escritoras. ´Rainha´, por exemplo, chegou a ser republicado, mas há cerca de 30 anos. As novas gerações não têm acesso", ressalta.

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER